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Home » Núcleos » Qualidade das águas » Apresentação
 
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Apresentação

As relações que a cidade do Salvador estabelece com as águas são bem mais complexas do que um primeiro olhar pode sugerir. Tais relações se materializam na forma de conflito, mas também como promessa de desenvolvimento e como substrato de um rico imaginário cultural e religioso, que encontra nos elementos da natureza sua referência mais forte e significativa.  Assim, as relações entre Salvador e as águas colocam questões diretamente relacionadas com a qualidade do ambiente urbano, a economia e a sociedade e também com a construção social de símbolos e práticas culturais e religiosos, secularmente instituídos na cidade.

A compreensão deste complexo conjunto de relações amplia e esgarça a noção de crise ambiental, passando esta a se referir ao comprometimento da qualidade de recursos ambientais considerados fundamentais à radicalização de processos de dissociação entre sociedade e natureza.  Nosso desafio, então, será identificar, em Salvador, nas relações que grupos e classes sociais estabelecem com as águas, uma peculiar expressão de dilemas característicos das sociedades pós-modernas, da crise ambiental – que se traduz, em verdade, como crise das sociedades produtoras de mercadorias. Destarte, consideramos que a problemática das águas em Salvador, que se materializa enquanto lógica da escassez e do espetáculo e se constitui em ameaça tanto às condições materiais de existência quanto a práticas religiosas secularmente instituídas na cidade, práticas que têm como fundamento uma relação orgânica com a natureza – em especial com as águas.

A constituição de uma problemática das águas em Salvador tem múltiplas faces e mesmo a noção de escassez, que eventualmente lhe possa ser associada, apresenta aqui um sentido particular. Quais são os elementos e práticas determinantes do que qualificamos como lógica da escassez em Salvador? A abundância se avizinha do assim chamado polígono da seca, onde a escassez absoluta das águas torna concreta e atual a previsão de que o século XXI terá na água um motivo de guerra. Entretanto, tal abundância tem progressivamente se convertido em escassez, particularmente pelos usos que transformam as águas em meio de diluição de dejetos. O processo de urbanização de Salvador, à semelhança do ocorrido em outras grandes cidades, ampliou e aprofundou as desigualdades e a exclusão social. De modo correlato, a ausência de investimentos em infra-estrutura urbana, particularmente em saneamento ambiental transformou a convivência com as águas num sério problema de saúde pública. Dessa maneira, os principais problemas sócio-ambientais da cidade estão intimamente associados com a complexa relação entre pobreza urbana, resultado de uma economia e mercado de trabalho estratificado e concentrador de renda, e o não acesso aos serviços de consumo coletivo.

As águas tornam-se então um problema ambiental dos mais graves, e isto se explicita da seguinte forma: apesar de ser um elemento vital à sobrevivência, à biodiversidade e ao conjunto da sociedade, as águas também são uma ameaça (decorrente da incidência de altos índices pluviométricos em uma topografia acidentada e em uma cidade favelizada) e um problema de saúde pública (em virtude da estratificação dos serviços de abastecimento, da inexistência de tratamento de águas servidas, da convivência diária com os resíduos sólidos e, em decorrência, da alta incidência de doenças de veiculação hídrica). A associação entre pobreza e acesso aos serviços de consumo coletivo, a padrões de atendimento e cobertura dos serviços de saneamento básico, é um dado estrutural das grandes cidades brasileiras e dos países "em desenvolvimento", que colocado à luz das diferenças regionais, passa a ter um peculiar significado na vida da cidade. Além de estar relacionada entre as capitais que apresentam os maiores índices de pobreza do país Salvador, historicamente, apresentou os menores percentuais de atendimento dos serviços de consumo coletivo, sendo sua distribuição das mais estratificadas e a qualidade dos serviços prestados das mais diferenciadas. A implementação do Programa Bahia Azul, que teve como objetivo a ampliação dos serviços de saneamento, encontra-se eivado de controvérsias, e questiona-se em que medida os investimentos realizados se traduziram em melhoria das condições de saneamento da cidade, em especial dos bairros populares, situados em áreas mais afastadas do centro da cidade. Pesquisas realizadas no âmbito da Universidade têm demonstrado que persistem graves problemas de esgotamento sanitário em algumas áreas da cidade, além de ser uma constante a dificuldade de acesso à água nestes bairros. Por conta dessas desigualdades em termos da qualidade do serviço prestado, o consumo de água fora dos padrões de potabilidade e a disposição inadequada das águas servidas são, dos problemas ambientais, os mais graves, sendo quase um truísmo afirmar que a qualidade de vida em Salvador depende da gestão ambientalmente correta das águas.

Entretanto, as águas em Salvador não são apenas aflição e doença. São também promessa de desenvolvimento, e esta é uma outra face desta problemática. Salvador nasce como um porto. Como afirmamos anteriormente a "Cidade da Bahia" nasceu e conformou-se com os olhos voltados para o mar, para a Baía de Todos os Santos, em direção à qual convergia parcela expressiva da riqueza gerada no Recôncavo da Bahia e mercadorias produzidas nos principais centros comerciais do mundo. No atual contexto de redefinição de processos produtivos, quando a cidade busca inserir-se de forma competitiva no processo de globalização, Salvador conforma-se como uma cidade tipicamente terciária, com uma economia voltada quase exclusivamente para o comércio e a prestação de serviços, estando sua identidade no cenário nacional e internacional associada à condição de cidade não industrial, do não trabalho, cuja "vocação" seria a constituição de uma "economia do lúdico", fundada na mercantilização dos seus atributos naturais e culturais (particularmente, os da cultura afro-baiana). Nesse contexto, as águas, antes um substrato de caminhos por onde circulavam riquezas, tornam-se substância de um projeto de desenvolvimento econômico e, logo, ameaçadora promessa de transformação dos elementos da natureza e da cultura local em espetáculo.

Assim, em Salvador, as águas não conformam apenas o que qualificamos como problemática das águas – e nisto reside sua peculiaridade. Mas não são exatamente estas manifestações culturais e religiosas que se constituem em objeto da economia do lúdico? Sim e não. Poder-se-ia dizer destas formas de organização e manifestação cultural e religiosa que, de forma simultânea, estão inseridas neste processo de mercantilização e também à sua margem. Assim, apesar dos modos sociais de uso e gestão das águas estarem profundamente marcados pela lógica do mercado, subsiste em Salvador um conjunto de práticas e manifestações derivadas da tradição africana que confere uma dimensão religiosa e mágica às águas, ampliando seus significados e atribuindo a este elemento da natureza a dupla condição de recurso e símbolo.

Salvador é uma cidade com expressiva parcela da população de origem negra, e isto tem um significado marcante na conformação de práticas e relações entre sociedade e natureza. O imaginário e os ritos do candomblé, associados à prática de "lavagem" de espaços públicos e igrejas (expressão do sincretismo religioso local), marcam e perpassam a história e a geografia da cidade. Yemanjá, rainha das águas salgadas, entidade "mítica" de forte presença no imaginário local, faz do dia 2 de fevereiro "dia de festa no mar". Remontando a Bahia colonial, com a chegada de negros de origem bantu e posteriormente de jejes e nagôs, esse universo de culto aos orixás, que se faz múltiplo e diverso (que busca sua afirmação e identidade, que se mescla com o catolicismo oficial e com práticas de origem espírita), só pode ser devidamente compreendido no contexto das relações de raça e classe em Salvador. Situado na histórica condição de excluído e envolto em uma estrutura religiosa profundamente hierarquizada, o povo-de-santo, perpassando a religião e a magia, gesta uma concepção de mundo na qual natureza e sociedade são concebidas a partir de princípios como "identidade" e "semelhança", tornando-se difícil estabelecer os limites entre o social e o natural, entre ser e mundo. Nesse imaginário. as águas "limpam" o terreiro e restituem o poder à natureza e os orixás são entidades que encarnam simultaneamente as forças da natureza e do coletivo social. O axé é um elemento que perpassa a sociedade e a natureza, o natural e o sobrenatural, conferindo unidade a estas "esferas" da vida e da existência.  A prática do candomblé requer o contato direto, não-mediatizado com a água, a terra e o "mato", demanda uma natureza não "secundarizada", que a água brote da fonte e seja respeitado o "tempo" dos elementos da natureza que estruturam seu universo.

Destarte, a crise ambiental, que se traduz como destruição ou comprometimento da qualidade dos recursos ambientais, como radicalização da separação entre sociedade e natureza (e correlativa e contraditoriamente pela diluição da fronteira entre ser social e natural, pela redescoberta dos vínculos entre sujeito e objeto do conhecimento), enfim, como crise das sociedades produtoras de mercadorias, perpassa as distintas esferas e modos de organização da sociedade local. Isto significa dizer que a relação entre Salvador e águas termina por adquirir significado particular, ganhando um especial sentido quando referida ao processo de transformação ou desintegração pela qual passa a sociedade brasileira. Como afirma Laymert Garcia dos Santos, ao falar-nos sobre as relações entre tecnologia e natureza no atual processo de "redescoberta" do Brasil, a "obsessão do descompasso" e a necessidade de inserir-se de forma competitiva na economia globalizada têm levado o país a abrir mão da sua diversidade sócio-biológica em troca de uma inserção no mercado globalizado. Salvador, de modo similar, tem procurado valer-se do que restou da natureza e das suas manifestações culturais, transformando-as em vantagem comparativa.

por Rodrigo Maurício última modificação 23/11/2007 17:54
 

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